Francisco Granate Fernandes

Casa Agrícola Irlanda Saraiva

“A criação de animais requer conhecimento, disciplina e a coragem de tomar decisões difíceis”

No norte de Portugal, longe do centro tradicional da criação do cavalo lusitano, Francisco construiu discretamente um programa de criação baseado na disciplina, no conhecimento e em critérios de seleção rigorosos. Na sua dupla qualidade de veterinário e criador, representa a Casa Agrícola Irlanda Saraiva, uma coudelaria que, ao longo das últimas duas décadas, desenvolveu uma orientação de criação clara e focada. “Represento uma pequena coudelaria no norte de Portugal”, explica Francisco. “Sou também veterinário e, ao longo dos anos, temos tido algum sucesso na criação.”

Assumir a responsabilidade por um programa de criação
O Francisco não foi ele próprio quem iniciou o projeto de criação. A quinta passou para a família por via de herança e, nessa altura, ele teve de tomar uma decisão importante sobre o seu futuro. “Há alguns anos, a família da minha mulher herdou a quinta de criação”, explica ele. “Antes disso, tinha sido gerida pelo falecido Sr. Manuel Saraiva, com a ajuda de uma figura muito importante no mundo do cavalo lusitano, o Sr. Francisco Sousa Cardoso.”
Nessa altura, o Francisco já trabalhava como veterinário na quinta. Mas assim que a responsabilidade pelo programa de criação recaiu sobre os seus ombros, percebeu que era impossível continuar sem uma direção clara. “Tive de tomar uma decisão importante”, afirma. “Ou este programa de criação se tornava uma operação profissional e rentável, ou teria de acabar. Um centro de criação é um projeto de grande peso na vida das pessoas.” A solução foi estabelecer critérios de criação extremamente rigorosos. “Tornei-me muito exigente nos critérios de seleção”, explica Francisco. “O nível de seleção tinha de ser muito elevado, porque estamos localizados no norte, longe dos centros tradicionais de criação de cavalos lusitanos. Por isso, ou produzíamos cavalos de altíssima qualidade, ou o projeto não sobreviveria.”  Quase vinte anos depois, os resultados confirmam que essas decisões difíceis foram as certas. “Tem sido uma jornada muito interessante”, afirma. “E estou muito satisfeito com os resultados.”

Figueiras como referência
Ao longo da sua carreira, Francisco tem acompanhado de perto o desenvolvimento do programa de criação de Figueiras, que considera uma das referências mais importantes na criação desportiva moderna de cavalos lusitanos. “Conheço o programa de criação de Figueiras desde o início da minha carreira”, explica. “Fazem um trabalho maravilhoso e os seus critérios de criação são fantásticos.”
Para ele, Figueiras representa um exemplo claro de um programa de criação centrado na produção de cavalos lusitanos para o desporto. “São realmente excelentes no seu objetivo de utilizar o cavalo lusitano como cavalo de desporto”, afirma. “Isso motiva-me imenso.”
Ainda assim, ele salienta que os criadores não devem limitar-se a copiar outros programas. “Nunca se pode copiar outro criador”, explica Francisco. “Se nos tornarmos uma cópia, nunca seremos melhores do que eles. Mas podemos usá-los como referência enquanto construímos a nossa própria identidade.”

Linhagens de abertura e de encerramento
O programa de criação de Francisco assenta numa linhagem cuidadosamente desenvolvida que ele mantém há muitos anos. Mas, mesmo no âmbito de uma estratégia de criação bem definida, por vezes é necessário introduzir novos elementos genéticos. “Quando se trabalha com uma única linhagem durante muito tempo, acaba por ser necessário abri-la novamente a outras linhagens.” Este processo de abertura e encerramento de linhagens constitui um ciclo recorrente no seu programa de criação. “Introduz-se novas qualidades de outra linhagem e, depois, recomeça-se a trabalhar para aperfeiçoar a própria linhagem.” Hoje, esse ciclo levou-o de volta aos garanhões Figueiras.

A escolha dos garanhões de Figueiras
Francisco voltou recentemente a introduzir as linhagens de Figueiras no seu programa de criação. “Tenho uma égua acasalada com o Queluz das Figueiras e, este ano, também vou recorrer ao Oscar das Figueiras.” O seu interesse por estes garanhões deve-se, em grande parte, às qualidades herdadas do famoso garanhão Dragão.  “Adorava o Dragão”, afirma Francisco. “E acredito que esta linhagem irá melhorar a qualidade dos andamentos e também certos aspetos anatómicos que pretendo aperfeiçoar nos meus cavalos.” Em particular, pretende reforçar características físicas específicas no seu próprio programa de criação. “A linhagem do Dragão transmite cernelha forte e ombros poderosos”, explica. “Isso é algo que pretendo introduzir mais no meu programa de criação.”

Conselhos para jovens criadores
Com décadas de experiência tanto como veterinário como criador, Francisco tem uma mensagem clara para quem está a iniciar os seus próprios programas de criação. “Primeiro, é preciso acumular conhecimento”, afirma. Esse conhecimento deve, depois, ser combinado com a experiência. “Quando se acumula conhecimento e experiência, começa-se a perceber para onde levar o programa de criação.” Mas nem isso é suficiente. “É preciso também ter resiliência”, acrescenta Francisco. “As coisas nunca correm exatamente como planeou na criação.” Talvez a parte mais difícil da criação, segundo ele, seja tomar decisões objetivas. “Quando os potros nascem, é preciso ser muito rigoroso na seleção”, afirma. “É preciso deixar o coração de lado e trabalhar com a razão.”

Cavalos que deixaram a sua marca
Ao longo dos anos, vários cavalos de Figueiras o impressionaram. “Adorei o desempenho da égua Batuta. Era um cavalo extraordinário.” Ele também fala com admiração do famoso garanhão Craque, um dos pilares do programa de criação de Figueiras.

“O Craque é um cavalo absolutamente fantástico.” Hoje, o Francisco está especialmente curioso para ver como se vai desenvolver a próxima geração de cavalos Figueiras. “Estou muito interessado nas carreiras dos netos, como o Queluz e o Oscar. Estou mesmo ansioso por ver o que eles vão conseguir.”

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